Escrever acerca de uma exposição que trata de pensar a cidade sob um horizonte tão nebulosamente pesado para a vida coletiva do país neste exato momento fez com que a atenção do texto fosse direcionada a três capitais brasileiras de diferentes regiões: Porto Alegre, São Paulo e Recife. Porto Alegre por viverem lá dois dos artistas desta mostra (Marina Camargo e Daniel Escobar) e São Paulo por estarmos, o terceiro participante (Andrei Thomaz) e o curador (eu), radicados no município. Em meados de 2015, Recife nos surgiu como o terreno propício de formulação de um desejo comum, o de ver irromper esta exibição. Sentimos que talvez pudéssemos, com uma voz uníssona, fazer levantar o som ecoado de nossa difusa hipótese e vimos na cidade do Recife a chance de refletir criticamente a partir de um projeto expositivo de arte o atual momento social, político e econômico em que se encontra o país.
Os trabalhos apresentados em A cidade, as ruínas e depois evidenciam sem dúvida alguma os efeitos colaterais da drástica transformação da paisagem urbana das grandes cidades do Brasil, sob o ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico dos últimos quinze anos. Essa mudança ocorre em precisa rota de colisão com a derrocada da especulação financeira e imobiliária, percebida mais intensamente pela crise político-administrativa em curso. Temas como gentrificação, exclusão, exploração de territórios, movimentos sociais de luta por moradia e programas de habitação social estão presentes, direta e indiretamente, no processo de concepção desta coletiva. A seleção posta em A cidade, as ruínas e depois, inclui obras produzidas individualmente, mas também em parceria; valendo-se desde técnicas manuais bastante artesanais até o uso de programação computacional. Embora distantes na tecnologia, esses trabalhos são próximas dialogicamente. Um exemplo disso é o aplicativo As ruínas e depois, criado especialmente para a ocasião. Formatado como base documental visual, o app serve ao mesmo tempo como um verdadeiro guia de áudio para a mediação com o público em visita à exposição.

Continuous (2012) de Daniel Escobar é o ponto de partida que traz para perto o pensamento sobre diversas cidades para se falar do óbvio que ninguém quer ver. Exposto na X Bienal de Arquitetura em São Paulo (2013), esse trabalho é o aprimoramento das práticas estéticas e experiências do artista, que viveu em Belo Horizonte. A capital mineira foi símbolo da utopia do planejamento urbanístico do modernismo e serviu como um verdadeiro campo de provas para o arquiteto Niemeyer e o político Kubitschek, para a posterior construção de Brasília entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960.
Com seu amontoado de tiras de papel fragmentado que conectam e desconectam ruas e viadutos evocando uma malha viária construída, recortada e sobreposta em espaço 3D, o trabalho nos alcança por não se assemelhar mais a cidade nenhuma, ou por fazer parecer que todas as cidades possam vir a assumir uma mesma forma. Continuous estabelece uma estreita relação com a nova edição de Eclipses (2009 – 2016) de Marina Camargo e Andrei Thomaz, em que ruas homônimas se justapõem, à maneira de uma colagem mapa -a-mapa, formando um alinhamento topográfico raro. São imagens em um movimento que não é o do vídeo, uma vez que as imagens são geradas por um software desenvolvido pelos artistas e projetadas diretamente contra a parede em uma sequência, como se todos os mapas juntos fossem vistos como o fenômeno natural de um eclipse. Cidade Planejada (2014) de Marina Camargo propõe uma ligação surpreendente com Continuous.
Em ambos os trabalhos, peças brancas estão dispostas sobre espaços escuros, como se os dois existissem em negativo na relação um com o outro. O tópico do planejamento das cidades não é abordado nessa obra de Marina, embora ela mencione estreitamente a problemática da cidade pseudo-planejada. Com o vídeo de um mapa fictício em loop, exibido em um monitor, Cidade Planejada remete ao centro de Porto Alegre e implica uma crítica ao modo de jogo caótico dos planos diretores das cidades, como se estas fossem pensadas, e não ampliadas descontroladamente como de fato ocorre.
Distopia? A especulação imobiliária (2014) de Daniel Escobar digere e questiona, a partir da presença de vitrines, a opressão dos caminhos previamente traçados na mobilidade urbana e no transporte público. A obra funciona visualmente no espaço expositivo como uma formação de stands de projetos em construção sendo vendidos ainda na planta, escancarando assim a ideia do desmanche e a transformação das peças do jogo financeiro que aceleradamente tornam ruína tudo a sua volta. O display denuncia a mentalidade que se apropria de nomes de edifícios condominiais. Os slogans de um falso estilo de vida servem meramente como instrumentos nas negociações de compra e venda, lançados no mercado pelos departamentos de marketing das grandes construtoras.
Por entre as salas de exposição, uma iluminação incidente sombreia e ofusca a visão do visitante, replicando em uma instância sensorial a fisicalidade da explosão confusa de novos empreendimentos residenciais e comerciais que cega e empareda a população em meio à infinidade de anúncios e bloqueios de acesso no trânsito. De Marina Camargo, a instalação Segundo natureza (2016) lida com a realidade que se constrói sozinha, como um volume vultoso de cenários artificiais de bunkers e parques que foram sofrendo alterações na paisagem por conta de diversos conflitos de interesses ao longo do tempo. Inspirada em suas vivências pelas cidades alemãs, a artista revolve aqui suas descobertas com a matéria do design urbano. São fotografias e blocos de concreto parcialmente cobertos com terra que amarram um paralelismo ante o apagamento da memória. Se justifica pelo fato de ter sido demolido o primeiro arranha-céu da cidade de Porto Alegre, chamado então de Edifício Malakoff, e pelo próprio local da exposição, a Torre Malakoff na Praça do Arsenal, no Recife Antigo, historicamente já deu lugar a um observatório astronômico. Céus (2016) de Andrei Thomaz exibe imagens geradas pelo software Relógio de Vela, desenvolvido pelo artista. São agrupamentos de fotografias que perpassam todas as salas da exposição uma pesquisa que torce a noção de tempo real, um exercício ao vivo em narrativa ficcional. Engendrados pela hegemonia do poder, o envelhecimento, abandono e extermínio dos espaços públicos como destruição sistemática de um estado de espírito voltado à noção de comunidade não decorre mais da inefável passagem temporal, mas tem suas causas absolutamente vinculadas à acelerada e desordenada metabolização das grandes cidades. Isso só faz promover a precariedade e a ausência de manutenção da urbis, que torna-se então alvo de investimentos em aparatos e vigilantes de segurança do estado e/ou privados.
A montagem da exposição A cidade, as ruínas e depois tem a cara dos três artistas, por haverem colaborado em suas pesquisas e poéticas individuais e coletivas antes, durante e depois deste projeto. Nos fortalece ter trabalhado perante um contexto conceitual local em carne tão viva e que nos respondeu tão favorável e prontamente, como é o caso do Recife. Sendo assim, o mais indicado é refletirmos sobre quais os apontamentos que podemos deixar para o entorno após o encerramento desta mostra e, com base nessa investigação de conhecimento originada no campo da arte, acessar o tanto que aprendemos do pouco que sabemos sobre esse todo que aflige a todos.
Mas por que mesmo foi feita a escolha da cidade do Recife para realizarmos esta mostra? Desde a extroversão de Eu vi o mundo… ele começava no Recife (1926 – 1929), pintura de Cícero Dias (1907 – 2003) que expandiu plástica e intelectualmente a mostra “Pernambuco Experimental”, com curadoria de Clarissa Diniz e Paulo Herkenhoff e apresentada no Museu de Arte do Rio (2013/2014), nunca fez tanto sentido continuar relembrando a poesia e da memória política das letras de Chico Science & Nação Zumbi. Quem viveu sabe, e sabe portanto que é o Nordeste que canta o Brasil:

“Eu pulei, eu pulei
E corria no coice macio
Encontrei o cidadão do mundo
No manguezal da beira do rio”
(O Cidadão do Mundo, Afrociberdelia, 1996)

Sendo assim, restam algumas indagações. O que teria sido feito de nós nos mais recentes anos sem os ensinamentos de soberania sob a adversidade das imposições e condições da biopolítica que o movimento de resistência #OcupeEstelita enfrentou em face do controverso Projeto Novo Recife? Como podem os arquitetos e urbanistas não terem lido Junkspace (2001), do arquiteto holandês Rem Koolhaas (1944)? Por que não sentiram-se fortemente influenciados e impactados profissionalmente pelo mais importante, duro e universalista texto crítico publicado exatamente há quinze anos contra esta maneira vigente, simplória e irresponsável de se descaracterizar as metrópoles, a orla, a zona portuária e toda a sua paisagem ao redor? Quem são esses arquitetos e urbanistas? Como não lembrar das fotografias e do livro Brasília Teimosa (2005 – 2007) de Bárbara Wagner, situados no extremo radical oposto do medo de tubarão deste inconsequente estado atual de amnésia e ganância repleto de selvageria que faz transformar a vida num canteiro de obras sem fim? E, só para encerrar: o que teria sido do Recife e do país neste famigerado ano de 2016 sem o filme Aquarius de Kléber Mendonça Filho?

por Marcio Harum