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Catálogo

Com textos de Cristiana Tejo, Márcio Harum e Mônica Hoff.

Catálogo em PDF

Visitação

De 8 de setembro a 18 de outubro de 2016
Torre Malakoff – Praça do Arsenal, s/n – Recife-PE
De terça a sexta-feira, das 10h às 17h; sábados, das 15h às 18h; e domingos, das 15h às 19h.

Sobre o futuro, e o que vem depois

Que perguntas podemos fazer para uma cidade? Como sabemos quando as coisas viram ruínas? Se é condição de existência das cidades mudarem constantemente, seriam os mapas ruínas anunciadas? Seriam os edifícios ruínas em tempo real? Se, como acreditam os povos indígenas, o céu é o grande porta-voz da terra, o que o céu poderia nos anunciar sobre o que vem depois? De que códigos, vestígios e narrativas nos valemos quando concebemos a cidade onde vivemos? Como perder-se nela? Como viver nela? Como responder a ela de forma que ela possa ser outras dentro dela mesma? Se há tantas semelhanças entre determinadas cidades, se muitas vezes nos sentimos em Porto Alegre e Recife ao mesmo tempo, por que elas seguem tendo o mesmo nome? E as cidades de mesmo nome, por que são tão diferentes? Se a cidade é uma escola, como acreditam alguns, qual seria, então, o nosso currículo? Como seria a escola se as disciplinas se chamassem Praça, Esquina, Cruzamento, Elevada, Canteiro de Obras, Padaria, Bicicleta, Passeio Público, Auto-estrada, Grama, Calçada? Onde está o futuro?

O filósofo (da ficção) Vilém Flusser dizia que quando não sabemos as respostas para as questões que mais nos assolam, as inventamos poeticamente. Fazemos ficção stricto sensu – jurídica, científica, política, pedagógica, religiosa, literária… Inventamos saídas para as nossas dúvidas. Fazemos poesia – para que ela, de alguma forma, (re)construa a realidade. Esta poderia ser compreendida, sem dúvida, como uma das equações centrais da prática artística. De acordo com o artista e educador Luis Camnitzer, fazemos arte para resolver problemas.

A cidade, as ruínas e depois é, tal qual propõem Flusser e Camnitzer, um conjunto de respostas a uma série de questões que vêm chamando a atenção de Marina Camargo, Andrei Thomaz e Daniel Escobar já há alguns anos. A ainda intensa disputa sobre os usos do espaço público, a cada vez mais presente especulação imobiliária, o desenfreado crescimento das cidades e, com isso, as políticas intermináveis de gentrificação e encarceramento social, bem como a crescente produção de ruínas contemporâneas, proporcionados em grande parte pelo desenfreado crescimento econômico do país na última década e meia, e seu esgotamento nos últimos anos, são apenas algumas delas.

De maneiras distintas, mas absolutamente complementares, em A cidade, as ruínas e depois cada artista dá a ver uma reflexão crítica sobre a vida nos tempos atuais e, principalmente, sobre como pensar a cidade, e praticá-la, deve ser um exercício diário. Dos mapas e naturezas de Marina, aos céus de Andrei, culminando com as ruínas contemporâneas de Daniel, o que se vê é um exercício vivo e inquietante de pesquisa e, com isso, uma torção na noção que temos de realidade. Ao passo que se um trabalho muitas vezes dialoga com outro, também se distancia deste para conversar com um terceiro, criando conexões não apenas por aproximação, senão também por contraste. Trata-se, pois de um campo magnético, em que as pesquisas individuais e coletivas dos três artistas se mesclam criando outros espaços de conhecimento que vão além das investigações originais, e também do próprio campo da arte – gerando, desta forma, novas perguntas para o mundo:

E se pudéssemos planejar uma cidade? E se, ao invés de morarmos empilhados em “apartamentos decorados”, morássemos em cidades-praças, cidades-árvores, cidades-escadas, como nos sugere Italo Calvino? Haveria ainda especulação imobiliária? Restaria, ainda assim, sob nossos pés algum resquício de natureza? E se, para fugir dos arranha-céus, simplesmente olhássemos mais para o céu? E se nos déssemos conta de que dia e noite são apenas convenções e que podem ser combinadas como se estivéssemos numa máquina do tempo? E se, por fim, nos fosse possível viver eclipses terrestres, como eles seriam? E se os mapas não mais representassem a paisagem e a paisagem passasse a servir de instrumento para nos guiar nos mapas, como seriam as cidades? Afinal, o que vem depois?

 

por Mônica Hoff

Recife em três tempos

Nunca há apenas uma cidade, mas sempre cidade no plural. Não apenas porque as cidades modificam-se com o tempo, mas principalmente porque cada pessoa vivencia uma localidade de forma muito peculiar. Isso não significa que não haja características e recorrências que atravessem séculos e que acabem por identificar determinado lugar no imaginário coletivo. O que interessa neste exto é apresentar brevemente os Recifes de Mario Sette (1932), Túlio Carella (1960/1962) e do movimento Ocupe Estelita (2012) a partir das reflexões trazidas pela exposição A cidade, as ruínas e
depois dos artistas Andrei Tomaz, Daniel Escobar e Marina Camargo. Trata-se de uma resposta muito pessoal de alguém que nasceu na capital pernambucana mas que cresceu em Brasília, só retornando à cidade natal na adolescência, e com a qual tem uma relação em que pertencimento e estranhamento intercalamse incessantemente. Durante anos, coletei relatos de estrangeiros sobre
o Recife e hoje compreendo que este ajuntamento dava-se porque eu mesma sentia-me uma forasteira com o olhar em constante construção. Além do fato óbvio destas narrativas apresentarem minha cidade em tempos históricos distintos do meu.

Modernidade nostálgica

Lançada em 1932, Arruar – História Pitoresca do Recife Antigo é talvez a obra mais emblemática do escritor Mario Sette, um dos pioneiros da literatura regionalista, que redescobre a Veneza Brasileira aos 16 anos quando volta de estudos no Rio de Janeiro. Arruar surge após a publicação de vários romances ambientados em Caruaru, Olinda e no próprio Recife e é o resultado de um exaustivo levantamento documental e de história oral feito por Sette sobre as mudanças de hábitos e de traços arquiteturais, urbanísticos e de estilo de vida que a modernidade trouxe entre fins do Século XIX e início do XX. O autor toma de empréstimo o termo arruar para nomear seu ato de ganhar as ruas da cidade para falar do passado e do seu presente. Arruar significa perambular ou 
passear com ostentação, mas Mario Sette refere-se à cadeirinha de arruar, meio de transporte carregado por escravos que permitia às mulheres de classe média e alta adentrar o espaço público. Ou em suas próprias palavras: “Cadeirinha de arruar, misto de recato e de ostentação. Um pouco de mistério e um muito de vaidade. E tão raras a princípio! Não era para quem queria e sim para quem podia. Distinguiam-se na cidade os seus donos, falava- se das transitadoras pela Boa Vista, por Santo Antônio, por Fora-de-Portas. As senhoras de relêvo social, moradoras dos sobrados de azulejos, por cima dos trapiches ou das lojas dos maridos, ou já nos sítios de casas apalacetadas dos arrabaldes, possuíam as suas, com ornatos de talha, com estofos de gorgorão, com portinholas desenhadas, conduzidas por escravos em parelhas de igual altura, negros bonitões e robustos, trajando librés de côres berrantes e bonés de oleado que o jornal anunciava como ‘novidade de Paris1”2 . Esta breve passagem introdutória do livro acentua alguns dos pontos mais relevantes do uso das cidades em lugares colonizados mundo afora: a distinção entre sujeito (classe dominante) e objeto (escravos e “demais propriedades”), o direito restrito de acesso à rua (às sinhazinhas só era permitido sair do ambiente doméstico com “proteção”) e o acompanhamento de modas vindas das metrópoles, para citar apenas três. Entretanto, é importante notar o quanto destes traços permanecem na dinâmica de ocupação das ruas do Recife e a quem e como é permitido acessar o espaço público. Apesar de ser considerado por alguns estudiosos como um entusiasta da modernidade, tendo inclusive promovido debates a respeito da industrialização e do cosmopolitismo numa tentativa de pensar como Recife poderia se equiparar às grandes metrópoles nacionais e mundiais, Mario Sette carrega um certo tom nostálgico em sua narrativa sobre a cidade que deixava de existir concretamente, mas que passavam a figurar nas páginas dos livros de história.

Cartografia erótica

Enfastiado com sua vida em Buenos Aires e a censura que passava a fazer parte mais constante no cotidiano argentino, o teatrólogo e escritor Tulio Carella decide aceitar o convite para lecionar no curso de artes cênicas da Universidade Federal de Pernambuco. Mudase em 1960. O clima, os homens negros e morenos e o cheiro do Recife despertam nele uma eroticidade até então esconhecida e ele resolve vivê-la da forma mais intensa possível. Aos poucos ele vai construindo uma rotina de encontros sexuais com anônimos pelas ruas do centro recifense que passa a ser registrada num diário. Parceiros mais freqüentes como o pugilista King Kong surgem, enquanto anotações da vida acadêmica vão arrefecendo. Os apontamentos de Carella tecem uma cartografia da existência homossexual da metade do século XX na capital pernambucana, apesar do próprio autor dizer que muitos de seus amantes não se considerassem gays. Becos, ruas, avenidas, praças, pontes, bares, em qualquer lugar poderia ocorrer o sexo. Alto e muito branco, o argentino chamava bastante atenção por onde passava. Sua presença constante junto a pessoas humildes chama a atenção dos militares que o prendem por acreditarem que ele participava de um levante popular e do contrabando de armas para Cuba a mando das Ligas Camponesas. É preso e torturado. Numa busca em seu quarto, os policiais encontram seu diário íntimo e compreendem que sua conexão com a cidade era de outra ordem. O achado passa a ser objeto de chantagem se Tulio Carella revelasse o
que havia passado com ele enquanto sob “os cuidados” dos militares. Ele é deportado para a Argentina e voluntariamente decide publicar seus apontamentos. No Brasil, o dramaturgo pernambucano Hermilo Borba Filho é o responsável pela tradução e edição.

A cidade é sua, ocupe-a!

O teórico peruano Anibal Quijano teorizou que a modernidade não pode ser compreendida sem a colonialidade, pois “com a conquista das sociedades e das culturas que habitam o que hoje é chamado de América Latina, começou a constituição de uma nova ordem mundial, culminando, quinhentos anos depois, em uma cobertura de poder global em todo o planeta. Este processo implica uma concentração violenta dos recursos do mundo sob o controle e para o benefício de uma pequena minoria européia e, sobretudo, de suas classes dominantes” (2007, 168). A concentração de recursos significou também o controle do conhecimento e a opressão e a invisibilidade das epistemologias das sociedades colonizadas. Alguns dos pilares da modernidade, como
novidade, o avançado, racional – científica, o secular não eram exclusividade da Europa (Grécia) e pode ser encontrada em muitas sociedades chamados altas culturas, como a China, Índia, Egito, Maya- asteca e Tawantisuyo. No entanto, o ponto principal é o estabelecimento da visão de mundo Europeia como a única legítima e verdadeira e, como consequência do “universal”. Importante notar que a perspectiva póscolonial ou decolonial é fruto de muitos questionamentos surgidos a partir de teorias que apontaram a parcialidade de discursos que se diziam universais e que esta compreensão desnaturaliza muitos aspectos da vida cotidiana, em especial a questão dos direitos. O chamado “politicamente correto” nada mais é do que a revisão de termos e de lugares de fala
e sociais daqueles que eram invisíveis historicamente há até pouco tempo. Há, em síntese, uma renegociação de poder e uma redistribuição de direitos e cidadania.

Em termos práticos, vemos muitas destas reivindicações mundo afora tomarem várias dimensões. Mas gostaria de ressaltar o que significa a busca por direitos no espaço urbano no Recife: o movimento Ocupe Estelita. Em 2008, na reta final do mandado do prefeito João Paulo, um consórcio formado pelas pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão,
Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos comprou em leilão o terreno da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) por R$55 milhões. O projeto previa a construção de 12 torres residenciais e comerciais de alto padrão, com até 40 andares, além de estacionamentos para quase 5 mil automóveis. O leilão ocorreu sem respeitar alguns ritos legais e o projeto de “reabilitação urbana” não contava com vários avais de órgãos regulmentatórios de várias esferas. O Novo Recife acabou por chamar a atenção da população local e mobilizações fizeram com que a sociedade civil passasse a
se interessar pelas reuniões do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da prefeitura de Recife. O que iniciou como uma reivindicação por mais diálogo e participação popular nas tomadas de decisão dos rumos da cidade desaguou no surgimento do grupo Direitos Urbanos (DU), em 2012. Este grupo até hoje representa a maioria dos integrantes do movimento Ocupe Estelita e é formado por pessoas de várias procedências, crenças e níveis de participação social. Por meio de ocupações lúdicas do terreno e com ações na justiça, o coletivo conseguiu suspender o processo de
construção e lançou luzes para um debate coletivo a respeito de possíveis usos do espaço. O Ocupe Estelita acendeu o imaginário de uma cidade que é pensada além de estruturas hierárquicas,
patriarcais e coloniais.

por Cristiana Tejo

A cidade, as ruínas e depois

Escrever acerca de uma exposição que trata de pensar a cidade sob um horizonte tão nebulosamente pesado para a vida coletiva do país neste exato momento fez com que a atenção do texto fosse direcionada a três capitais brasileiras de diferentes regiões: Porto Alegre, São Paulo e Recife. Porto Alegre por viverem lá dois dos artistas desta mostra (Marina Camargo e Daniel Escobar) e São Paulo por estarmos, o terceiro participante (Andrei Thomaz) e o curador (eu), radicados no município. Em meados de 2015, Recife nos surgiu como o terreno propício de formulação de um desejo comum, o de ver irromper esta exibição. Sentimos que talvez pudéssemos, com uma voz uníssona, fazer levantar o som ecoado de nossa difusa hipótese e vimos na cidade do Recife a chance de refletir criticamente a partir de um projeto expositivo de arte o atual momento social, político e econômico em que se encontra o país.
Os trabalhos apresentados em A cidade, as ruínas e depois evidenciam sem dúvida alguma os efeitos colaterais da drástica transformação da paisagem urbana das grandes cidades do Brasil, sob o ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico dos últimos quinze anos. Essa mudança ocorre em precisa rota de colisão com a derrocada da especulação financeira e imobiliária, percebida mais intensamente pela crise político-administrativa em curso. Temas como gentrificação, exclusão, exploração de territórios, movimentos sociais de luta por moradia e programas de habitação social estão presentes, direta e indiretamente, no processo de concepção desta coletiva. A seleção posta em A cidade, as ruínas e depois, inclui obras produzidas individualmente, mas também em parceria; valendo-se desde técnicas manuais bastante artesanais até o uso de programação computacional. Embora distantes na tecnologia, esses trabalhos são próximas dialogicamente. Um exemplo disso é o aplicativo As ruínas e depois, criado especialmente para a ocasião. Formatado como base documental visual, o app serve ao mesmo tempo como um verdadeiro guia de áudio para a mediação com o público em visita à exposição.

Continuous (2012) de Daniel Escobar é o ponto de partida que traz para perto o pensamento sobre diversas cidades para se falar do óbvio que ninguém quer ver. Exposto na X Bienal de Arquitetura em São Paulo (2013), esse trabalho é o aprimoramento das práticas estéticas e experiências do artista, que viveu em Belo Horizonte. A capital mineira foi símbolo da utopia do planejamento urbanístico do modernismo e serviu como um verdadeiro campo de provas para o arquiteto Niemeyer e o político Kubitschek, para a posterior construção de Brasília entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960.
Com seu amontoado de tiras de papel fragmentado que conectam e desconectam ruas e viadutos evocando uma malha viária construída, recortada e sobreposta em espaço 3D, o trabalho nos alcança por não se assemelhar mais a cidade nenhuma, ou por fazer parecer que todas as cidades possam vir a assumir uma mesma forma. Continuous estabelece uma estreita relação com a nova edição de Eclipses (2009 – 2016) de Marina Camargo e Andrei Thomaz, em que ruas homônimas se justapõem, à maneira de uma colagem mapa -a-mapa, formando um alinhamento topográfico raro. São imagens em um movimento que não é o do vídeo, uma vez que as imagens são geradas por um software desenvolvido pelos artistas e projetadas diretamente contra a parede em uma sequência, como se todos os mapas juntos fossem vistos como o fenômeno natural de um eclipse. Cidade Planejada (2014) de Marina Camargo propõe uma ligação surpreendente com Continuous.
Em ambos os trabalhos, peças brancas estão dispostas sobre espaços escuros, como se os dois existissem em negativo na relação um com o outro. O tópico do planejamento das cidades não é abordado nessa obra de Marina, embora ela mencione estreitamente a problemática da cidade pseudo-planejada. Com o vídeo de um mapa fictício em loop, exibido em um monitor, Cidade Planejada remete ao centro de Porto Alegre e implica uma crítica ao modo de jogo caótico dos planos diretores das cidades, como se estas fossem pensadas, e não ampliadas descontroladamente como de fato ocorre.
Distopia? A especulação imobiliária (2014) de Daniel Escobar digere e questiona, a partir da presença de vitrines, a opressão dos caminhos previamente traçados na mobilidade urbana e no transporte público. A obra funciona visualmente no espaço expositivo como uma formação de stands de projetos em construção sendo vendidos ainda na planta, escancarando assim a ideia do desmanche e a transformação das peças do jogo financeiro que aceleradamente tornam ruína tudo a sua volta. O display denuncia a mentalidade que se apropria de nomes de edifícios condominiais. Os slogans de um falso estilo de vida servem meramente como instrumentos nas negociações de compra e venda, lançados no mercado pelos departamentos de marketing das grandes construtoras.
Por entre as salas de exposição, uma iluminação incidente sombreia e ofusca a visão do visitante, replicando em uma instância sensorial a fisicalidade da explosão confusa de novos empreendimentos residenciais e comerciais que cega e empareda a população em meio à infinidade de anúncios e bloqueios de acesso no trânsito. De Marina Camargo, a instalação Segundo natureza (2016) lida com a realidade que se constrói sozinha, como um volume vultoso de cenários artificiais de bunkers e parques que foram sofrendo alterações na paisagem por conta de diversos conflitos de interesses ao longo do tempo. Inspirada em suas vivências pelas cidades alemãs, a artista revolve aqui suas descobertas com a matéria do design urbano. São fotografias e blocos de concreto parcialmente cobertos com terra que amarram um paralelismo ante o apagamento da memória. Se justifica pelo fato de ter sido demolido o primeiro arranha-céu da cidade de Porto Alegre, chamado então de Edifício Malakoff, e pelo próprio local da exposição, a Torre Malakoff na Praça do Arsenal, no Recife Antigo, historicamente já deu lugar a um observatório astronômico. Céus (2016) de Andrei Thomaz exibe imagens geradas pelo software Relógio de Vela, desenvolvido pelo artista. São agrupamentos de fotografias que perpassam todas as salas da exposição uma pesquisa que torce a noção de tempo real, um exercício ao vivo em narrativa ficcional. Engendrados pela hegemonia do poder, o envelhecimento, abandono e extermínio dos espaços públicos como destruição sistemática de um estado de espírito voltado à noção de comunidade não decorre mais da inefável passagem temporal, mas tem suas causas absolutamente vinculadas à acelerada e desordenada metabolização das grandes cidades. Isso só faz promover a precariedade e a ausência de manutenção da urbis, que torna-se então alvo de investimentos em aparatos e vigilantes de segurança do estado e/ou privados.
A montagem da exposição A cidade, as ruínas e depois tem a cara dos três artistas, por haverem colaborado em suas pesquisas e poéticas individuais e coletivas antes, durante e depois deste projeto. Nos fortalece ter trabalhado perante um contexto conceitual local em carne tão viva e que nos respondeu tão favorável e prontamente, como é o caso do Recife. Sendo assim, o mais indicado é refletirmos sobre quais os apontamentos que podemos deixar para o entorno após o encerramento desta mostra e, com base nessa investigação de conhecimento originada no campo da arte, acessar o tanto que aprendemos do pouco que sabemos sobre esse todo que aflige a todos.
Mas por que mesmo foi feita a escolha da cidade do Recife para realizarmos esta mostra? Desde a extroversão de Eu vi o mundo… ele começava no Recife (1926 – 1929), pintura de Cícero Dias (1907 – 2003) que expandiu plástica e intelectualmente a mostra “Pernambuco Experimental”, com curadoria de Clarissa Diniz e Paulo Herkenhoff e apresentada no Museu de Arte do Rio (2013/2014), nunca fez tanto sentido continuar relembrando a poesia e da memória política das letras de Chico Science & Nação Zumbi. Quem viveu sabe, e sabe portanto que é o Nordeste que canta o Brasil:

“Eu pulei, eu pulei
E corria no coice macio
Encontrei o cidadão do mundo
No manguezal da beira do rio”
(O Cidadão do Mundo, Afrociberdelia, 1996)

Sendo assim, restam algumas indagações. O que teria sido feito de nós nos mais recentes anos sem os ensinamentos de soberania sob a adversidade das imposições e condições da biopolítica que o movimento de resistência #OcupeEstelita enfrentou em face do controverso Projeto Novo Recife? Como podem os arquitetos e urbanistas não terem lido Junkspace (2001), do arquiteto holandês Rem Koolhaas (1944)? Por que não sentiram-se fortemente influenciados e impactados profissionalmente pelo mais importante, duro e universalista texto crítico publicado exatamente há quinze anos contra esta maneira vigente, simplória e irresponsável de se descaracterizar as metrópoles, a orla, a zona portuária e toda a sua paisagem ao redor? Quem são esses arquitetos e urbanistas? Como não lembrar das fotografias e do livro Brasília Teimosa (2005 – 2007) de Bárbara Wagner, situados no extremo radical oposto do medo de tubarão deste inconsequente estado atual de amnésia e ganância repleto de selvageria que faz transformar a vida num canteiro de obras sem fim? E, só para encerrar: o que teria sido do Recife e do país neste famigerado ano de 2016 sem o filme Aquarius de Kléber Mendonça Filho?

por Marcio Harum

Agradecimentos

Ficha Técnica

Publicação