Nunca há apenas uma cidade, mas sempre cidade no plural. Não apenas porque as cidades modificam-se com o tempo, mas principalmente porque cada pessoa vivencia uma localidade de forma muito peculiar. Isso não significa que não haja características e recorrências que atravessem séculos e que acabem por identificar determinado lugar no imaginário coletivo. O que interessa neste exto é apresentar brevemente os Recifes de Mario Sette (1932), Túlio Carella (1960/1962) e do movimento Ocupe Estelita (2012) a partir das reflexões trazidas pela exposição A cidade, as ruínas e
depois dos artistas Andrei Tomaz, Daniel Escobar e Marina Camargo. Trata-se de uma resposta muito pessoal de alguém que nasceu na capital pernambucana mas que cresceu em Brasília, só retornando à cidade natal na adolescência, e com a qual tem uma relação em que pertencimento e estranhamento intercalamse incessantemente. Durante anos, coletei relatos de estrangeiros sobre
o Recife e hoje compreendo que este ajuntamento dava-se porque eu mesma sentia-me uma forasteira com o olhar em constante construção. Além do fato óbvio destas narrativas apresentarem minha cidade em tempos históricos distintos do meu.

Modernidade nostálgica

Lançada em 1932, Arruar – História Pitoresca do Recife Antigo é talvez a obra mais emblemática do escritor Mario Sette, um dos pioneiros da literatura regionalista, que redescobre a Veneza Brasileira aos 16 anos quando volta de estudos no Rio de Janeiro. Arruar surge após a publicação de vários romances ambientados em Caruaru, Olinda e no próprio Recife e é o resultado de um exaustivo levantamento documental e de história oral feito por Sette sobre as mudanças de hábitos e de traços arquiteturais, urbanísticos e de estilo de vida que a modernidade trouxe entre fins do Século XIX e início do XX. O autor toma de empréstimo o termo arruar para nomear seu ato de ganhar as ruas da cidade para falar do passado e do seu presente. Arruar significa perambular ou 
passear com ostentação, mas Mario Sette refere-se à cadeirinha de arruar, meio de transporte carregado por escravos que permitia às mulheres de classe média e alta adentrar o espaço público. Ou em suas próprias palavras: “Cadeirinha de arruar, misto de recato e de ostentação. Um pouco de mistério e um muito de vaidade. E tão raras a princípio! Não era para quem queria e sim para quem podia. Distinguiam-se na cidade os seus donos, falava- se das transitadoras pela Boa Vista, por Santo Antônio, por Fora-de-Portas. As senhoras de relêvo social, moradoras dos sobrados de azulejos, por cima dos trapiches ou das lojas dos maridos, ou já nos sítios de casas apalacetadas dos arrabaldes, possuíam as suas, com ornatos de talha, com estofos de gorgorão, com portinholas desenhadas, conduzidas por escravos em parelhas de igual altura, negros bonitões e robustos, trajando librés de côres berrantes e bonés de oleado que o jornal anunciava como ‘novidade de Paris1”2 . Esta breve passagem introdutória do livro acentua alguns dos pontos mais relevantes do uso das cidades em lugares colonizados mundo afora: a distinção entre sujeito (classe dominante) e objeto (escravos e “demais propriedades”), o direito restrito de acesso à rua (às sinhazinhas só era permitido sair do ambiente doméstico com “proteção”) e o acompanhamento de modas vindas das metrópoles, para citar apenas três. Entretanto, é importante notar o quanto destes traços permanecem na dinâmica de ocupação das ruas do Recife e a quem e como é permitido acessar o espaço público. Apesar de ser considerado por alguns estudiosos como um entusiasta da modernidade, tendo inclusive promovido debates a respeito da industrialização e do cosmopolitismo numa tentativa de pensar como Recife poderia se equiparar às grandes metrópoles nacionais e mundiais, Mario Sette carrega um certo tom nostálgico em sua narrativa sobre a cidade que deixava de existir concretamente, mas que passavam a figurar nas páginas dos livros de história.

Cartografia erótica

Enfastiado com sua vida em Buenos Aires e a censura que passava a fazer parte mais constante no cotidiano argentino, o teatrólogo e escritor Tulio Carella decide aceitar o convite para lecionar no curso de artes cênicas da Universidade Federal de Pernambuco. Mudase em 1960. O clima, os homens negros e morenos e o cheiro do Recife despertam nele uma eroticidade até então esconhecida e ele resolve vivê-la da forma mais intensa possível. Aos poucos ele vai construindo uma rotina de encontros sexuais com anônimos pelas ruas do centro recifense que passa a ser registrada num diário. Parceiros mais freqüentes como o pugilista King Kong surgem, enquanto anotações da vida acadêmica vão arrefecendo. Os apontamentos de Carella tecem uma cartografia da existência homossexual da metade do século XX na capital pernambucana, apesar do próprio autor dizer que muitos de seus amantes não se considerassem gays. Becos, ruas, avenidas, praças, pontes, bares, em qualquer lugar poderia ocorrer o sexo. Alto e muito branco, o argentino chamava bastante atenção por onde passava. Sua presença constante junto a pessoas humildes chama a atenção dos militares que o prendem por acreditarem que ele participava de um levante popular e do contrabando de armas para Cuba a mando das Ligas Camponesas. É preso e torturado. Numa busca em seu quarto, os policiais encontram seu diário íntimo e compreendem que sua conexão com a cidade era de outra ordem. O achado passa a ser objeto de chantagem se Tulio Carella revelasse o
que havia passado com ele enquanto sob “os cuidados” dos militares. Ele é deportado para a Argentina e voluntariamente decide publicar seus apontamentos. No Brasil, o dramaturgo pernambucano Hermilo Borba Filho é o responsável pela tradução e edição.

A cidade é sua, ocupe-a!

O teórico peruano Anibal Quijano teorizou que a modernidade não pode ser compreendida sem a colonialidade, pois “com a conquista das sociedades e das culturas que habitam o que hoje é chamado de América Latina, começou a constituição de uma nova ordem mundial, culminando, quinhentos anos depois, em uma cobertura de poder global em todo o planeta. Este processo implica uma concentração violenta dos recursos do mundo sob o controle e para o benefício de uma pequena minoria européia e, sobretudo, de suas classes dominantes” (2007, 168). A concentração de recursos significou também o controle do conhecimento e a opressão e a invisibilidade das epistemologias das sociedades colonizadas. Alguns dos pilares da modernidade, como
novidade, o avançado, racional – científica, o secular não eram exclusividade da Europa (Grécia) e pode ser encontrada em muitas sociedades chamados altas culturas, como a China, Índia, Egito, Maya- asteca e Tawantisuyo. No entanto, o ponto principal é o estabelecimento da visão de mundo Europeia como a única legítima e verdadeira e, como consequência do “universal”. Importante notar que a perspectiva póscolonial ou decolonial é fruto de muitos questionamentos surgidos a partir de teorias que apontaram a parcialidade de discursos que se diziam universais e que esta compreensão desnaturaliza muitos aspectos da vida cotidiana, em especial a questão dos direitos. O chamado “politicamente correto” nada mais é do que a revisão de termos e de lugares de fala
e sociais daqueles que eram invisíveis historicamente há até pouco tempo. Há, em síntese, uma renegociação de poder e uma redistribuição de direitos e cidadania.

Em termos práticos, vemos muitas destas reivindicações mundo afora tomarem várias dimensões. Mas gostaria de ressaltar o que significa a busca por direitos no espaço urbano no Recife: o movimento Ocupe Estelita. Em 2008, na reta final do mandado do prefeito João Paulo, um consórcio formado pelas pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão,
Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos comprou em leilão o terreno da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) por R$55 milhões. O projeto previa a construção de 12 torres residenciais e comerciais de alto padrão, com até 40 andares, além de estacionamentos para quase 5 mil automóveis. O leilão ocorreu sem respeitar alguns ritos legais e o projeto de “reabilitação urbana” não contava com vários avais de órgãos regulmentatórios de várias esferas. O Novo Recife acabou por chamar a atenção da população local e mobilizações fizeram com que a sociedade civil passasse a
se interessar pelas reuniões do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da prefeitura de Recife. O que iniciou como uma reivindicação por mais diálogo e participação popular nas tomadas de decisão dos rumos da cidade desaguou no surgimento do grupo Direitos Urbanos (DU), em 2012. Este grupo até hoje representa a maioria dos integrantes do movimento Ocupe Estelita e é formado por pessoas de várias procedências, crenças e níveis de participação social. Por meio de ocupações lúdicas do terreno e com ações na justiça, o coletivo conseguiu suspender o processo de
construção e lançou luzes para um debate coletivo a respeito de possíveis usos do espaço. O Ocupe Estelita acendeu o imaginário de uma cidade que é pensada além de estruturas hierárquicas,
patriarcais e coloniais.

por Cristiana Tejo