Que perguntas podemos fazer para uma cidade? Como sabemos quando as coisas viram ruínas? Se é condição de existência das cidades mudarem constantemente, seriam os mapas ruínas anunciadas? Seriam os edifícios ruínas em tempo real? Se, como acreditam os povos indígenas, o céu é o grande porta-voz da terra, o que o céu poderia nos anunciar sobre o que vem depois? De que códigos, vestígios e narrativas nos valemos quando concebemos a cidade onde vivemos? Como perder-se nela? Como viver nela? Como responder a ela de forma que ela possa ser outras dentro dela mesma? Se há tantas semelhanças entre determinadas cidades, se muitas vezes nos sentimos em Porto Alegre e Recife ao mesmo tempo, por que elas seguem tendo o mesmo nome? E as cidades de mesmo nome, por que são tão diferentes? Se a cidade é uma escola, como acreditam alguns, qual seria, então, o nosso currículo? Como seria a escola se as disciplinas se chamassem Praça, Esquina, Cruzamento, Elevada, Canteiro de Obras, Padaria, Bicicleta, Passeio Público, Auto-estrada, Grama, Calçada? Onde está o futuro?

O filósofo (da ficção) Vilém Flusser dizia que quando não sabemos as respostas para as questões que mais nos assolam, as inventamos poeticamente. Fazemos ficção stricto sensu – jurídica, científica, política, pedagógica, religiosa, literária… Inventamos saídas para as nossas dúvidas. Fazemos poesia – para que ela, de alguma forma, (re)construa a realidade. Esta poderia ser compreendida, sem dúvida, como uma das equações centrais da prática artística. De acordo com o artista e educador Luis Camnitzer, fazemos arte para resolver problemas.

A cidade, as ruínas e depois é, tal qual propõem Flusser e Camnitzer, um conjunto de respostas a uma série de questões que vêm chamando a atenção de Marina Camargo, Andrei Thomaz e Daniel Escobar já há alguns anos. A ainda intensa disputa sobre os usos do espaço público, a cada vez mais presente especulação imobiliária, o desenfreado crescimento das cidades e, com isso, as políticas intermináveis de gentrificação e encarceramento social, bem como a crescente produção de ruínas contemporâneas, proporcionados em grande parte pelo desenfreado crescimento econômico do país na última década e meia, e seu esgotamento nos últimos anos, são apenas algumas delas.

De maneiras distintas, mas absolutamente complementares, em A cidade, as ruínas e depois cada artista dá a ver uma reflexão crítica sobre a vida nos tempos atuais e, principalmente, sobre como pensar a cidade, e praticá-la, deve ser um exercício diário. Dos mapas e naturezas de Marina, aos céus de Andrei, culminando com as ruínas contemporâneas de Daniel, o que se vê é um exercício vivo e inquietante de pesquisa e, com isso, uma torção na noção que temos de realidade. Ao passo que se um trabalho muitas vezes dialoga com outro, também se distancia deste para conversar com um terceiro, criando conexões não apenas por aproximação, senão também por contraste. Trata-se, pois de um campo magnético, em que as pesquisas individuais e coletivas dos três artistas se mesclam criando outros espaços de conhecimento que vão além das investigações originais, e também do próprio campo da arte – gerando, desta forma, novas perguntas para o mundo:

E se pudéssemos planejar uma cidade? E se, ao invés de morarmos empilhados em “apartamentos decorados”, morássemos em cidades-praças, cidades-árvores, cidades-escadas, como nos sugere Italo Calvino? Haveria ainda especulação imobiliária? Restaria, ainda assim, sob nossos pés algum resquício de natureza? E se, para fugir dos arranha-céus, simplesmente olhássemos mais para o céu? E se nos déssemos conta de que dia e noite são apenas convenções e que podem ser combinadas como se estivéssemos numa máquina do tempo? E se, por fim, nos fosse possível viver eclipses terrestres, como eles seriam? E se os mapas não mais representassem a paisagem e a paisagem passasse a servir de instrumento para nos guiar nos mapas, como seriam as cidades? Afinal, o que vem depois?

 

por Mônica Hoff